Sunday, January 02, 2011

(Sentimentos Resgatados - X) "sombra"

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Um aperto presenteia-lhe o peito. Frio. Inerte.

Ele dança com as palavras nas pontas dos dedos. Na secretária que todas as noites o acolhe. No silêncio que é a recompensa de todos os seus dias. Imutável. Igualmente frio. Quer que algo saia. Um grito de frustração e revolta. Um escoar e um escape, para o desânimo e a descrença. Pouco sai. Meras sílabas, titubeantes. Derrotadas, sobre o pó de uma incapacidade inata.

Ele revê um termo. Descrença. Acreditar. Sim. É com essa quimera, que ele tem andado a lutar. Desde que se recorda. Acreditar. Em si. Nos outros. Nos sonhos que lhe mostravam, nos sonhos a que se permitia. E a cada um que era estrangulado, partido, estilhaçado, ele substituía com outro. Reinventado. Reaproveitado. Reduzido. Recauchutado.

E finalmente todos os seus sonhos morreram. Ao longo de anos que se tornavam opulentas décadas. Numa hemorragia de emoções. Numa revolta que ardia como chama intensa e curta, substituída por espirais de fumo cinza. Como se de um pavio recentemente apagado, se tratasse.

Ah, mas então aí, ele desistiu de acreditar nos seus sonhos, para acreditar nos dos outros. Podia não ser para ele, mas... a outros, era permitido. A outros, ele podia ajudar. Olhar. Nunca pertencer. Não. Porque isso seria ousar demais. Seria presunção. Mas ao menos... ver de fora. E o sorriso no contemplar, esconderia a dor do não ter.

Mas não. Nem isso. Cada palavra sua, era incómodo. Cada sorriso seu, era insistência. Cada gesto seu, era invasão. Cada mensagem sua, um par de mãos a tentarem travar um vagalhão.

Irrelevante. Ridículo. A mais. Presunçoso. Sabichão. Saturante. E o resultado revelava-se sempre o mesmo.

Nenhum.

E as próprias palavras que ele dizia... Como, transmitir esperança, quando esta já não tinha nele guarida?

Ele não acredita mais. Tudo se resume a isso. Um não mais acreditar. Exausto. Absoluto.

Ele contempla o candeeiro de ferro forjado à sua frente. Do lado de fora, da janela de sempre. A sua luz fria é o único calor que lhe é permitido, ao final de um dia torcido numa noite. Sucessão de dias, que acabam sempre de forma igual. Muda o cenário, mas não o resultado. Silencio frio. Cortante. Angustiante. Saturante.

O que é um homem que continua vivo, mas sozinho, sem nenhuma forma de esperança?

Uma sombra sobre o dourado.


(8 de Janeiro de 2009)

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